sábado, 31 de outubro de 2015

Outros abismos mexicanos

























E neste exercício de economato literário, como lhe poderia chamar Enrique Vila-Matas, à medida que vou sublinhando no livro de Malcolm Lowry os nomes das setenta e sete bebidas consumidas debaixo do vulcão, imagino-me de novo em Cuernavaca, no Día de los Muertos, ao crepúsculo, sentado na esplanada de Las Mañanitas de frente para os vulcões gémeos resplandecentes de neve, bebendo uma coronita gelada - essa clara cerveja mexicana que vem numa garrafa transparente e que, às vezes, no Verão, ao segundo entardecer, gosto de beber sentado no meu terraço sob um céu que se vai quebrando num esplendor vermelho.

E ali - isto é, aqui, agora, não na esplanada de solitários atravessada por um cortejo de máscaras e disparos mentais que vislumbro na dobra de uma página - imagino um país que, escreve Juan Villoro, é uma «indecifrável realidade que por convenção chamamos México». Um país cujo imaginário transforma os escritores que ousam cruzar os seus admiráveis abismos de festa, alucinação e morte em exploradores de um território literário vertiginoso donde, nem sempre, regressam incólumes. Como Lowry, o «cônsul da embriaguez e dos vulcões» (José Agostinho Baptista) engolido nos abismos do mescal.

Abandono, entretanto, o cenário de ruínas e amargura de Cuernavaca e, num recanto da minha biblioteca mexicana, vou procurando outras bifurcações de um país onde toda a ficção é possível. Primeiro, os mexicanos. Juan Rulfo, claro. E Carlos Monsivais e Sergio Pitol e Juan Villoro. E os estrangeiros. Talvez aqueles que melhor visionaram o México. Escreve Roberto Bolaño - o escritor chileno prematuramente desaparecido - que «dos muitos romances que já se escreveram sobre o México, os melhores provavelmente serão os ingleses e um ou outro americano. D. H. Lawrence [A serpente emplumada] desata a novela agonista, Graham Green o romance moral [O poder e a glória] e Malcolm Lowry a novela total» (Entre paréntesis, Anagrama, 2004). E, acrescentaria eu, Enrique Vila-Matas que em Longe de Vera Cruz (Assírio & Alvim) desata uma exaltada mitografia do México.

E que desata o próprio Roberto Bolaño que nos legou dois extravagantes romances «mexicanos» que guardo numa prateleira muito especial da minha biblioteca? Os detectives selvagens (Teorema), «o melhor romance mexicano desde A região mais transparente [Carlos Fuentes, 1958], ou o melhor romance sobre o México desdeDebaixo do vulcão, segundo Jorge Herralde; um delírio de labirintos crepusculares derramando-se sobre arredores estranhos de uma cidade, México D. F., território de sobrevivência de uma geração encarcerada à beira do precipício. E 2666 (Quetzal) espécie de romance pulp fiction, buraco negro do crime múltiplo sem solução cuja cratera se situa em Ciudad Juárez, lugar de todas as vertigens, de todos os pesadelos? Desata, sobretudo, uma nova ordem literária - a do realismo visceral - que corta com o chamado realismo mágico latino-americano dos galos da Amazónia e das virgens em levitação e com as visões estrangeiras de uma Cuernavaca que só sobrevive no romance de Lowry.

Debaixo do vulcão

























Lembro-me de há uns anos ir a caminho de Taxco pela estrada que sobe desde a cidade do México e, depois, se inclina para Cuernavaca, a cidade que em Debaixo do vulcão dá pelo nome de Quauhnahuac e onde nos habituámos a ver desesperar Malcolm Lowry. Lembro-me de errar através de um emaranhado de ruas ensolaradas; de atravessar um jardim decadente sob um céu em chamas; e, respondendo ao chamamento dolente de uma canção de Jorge Negrete vinda de uma máquina de discos, ter cruzado o umbral sombrio de uma cantina anónima que acabara de abrir as suas portas; e de, ali, depois, ter experimentado a minha primeira tequila destilada do mais puro agave mexicano. Herradura vinha escrito no rótulo da garrafa depositada sobre o balcão.

E a cantina, tão real como a do romance, talvez fosse El Farolito, cuja fotografia descobri há dias no blogue da Fundação criada em Cuernavaca para recordar o inglês perseguido pelos demónios do mescal. E é o próprio Lowry que, agora, mo confirma: «que beleza se poderá comparar à de uma cantina, de manhã, cedinho? […] pensa em todos os terríveis estabelecimentos, em frente dos quais as pessoas desesperam, impacientes por que se levantem os taipais! Nem as portas do céu, que para mim se abrissem de par em par, me proporcionariam uma alegria tão celestial, tão complexa e tão desesperada como aporta ondulada que se ergue com estrondo, como as gelosias que sobem, admitindo essas almas que vibram com as bebidas, levadas aos lábios com mãos vacilantes. Todo o mistério, toda a esperança, todo o desapontamento, sim, todas as misérias aqui se encontram, para lá dessas portas que se balançam num vaivém». (Debaixo do vulcão, Relógio de Água.

E agora que volto a ler o seu livro e a incandescência permanece, lembro-me de, naquele homem debruçado sobre o tampo de pedra encardida do balcão ao fundo, «afogando a dor no melhor mescal do México», parecer-me ter visto - não sei se por ter bebido aquele álcool até ao fundo, se embriagado pela atmosfera mescalianiana de El Farolito - o próprio Malcolm Lowry. E que outra visão poderia eu ter tido ali, naquela cantina debaixo do vulcão, com a garganta incendiada pelo fogo do mesmo agave que nesta dobra da noite volto a beber enquanto vou sublinhando o nome das setenta e sete bebidas alcoólicas diferentes emborcadas pelo cônsul e seus acólitos ao longo das trezentas e quarenta e seis páginas do alucinante romance de Lowry?

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Gente de Montevideu



Lembro-me de, um dia, em Montevideu, ter falhado a possibilidade de me cruzar com os personagens que Julio Cortázar e de Adolfo Bioy Casares, respectivamente, em La puerta condenada e em Un viaje ou el mago inmortal, fizeram pernoitar num misterioso quarto de um hotel espectral cujo primeiro rumor me haveria de chegar, alguns anos mais tarde, através de uma crónica de Enrique Vila-Matas publicada numa edição da revista Atlântica. Se na ocasião tivesse, minimamente, suspeitado dos segredos que se escondiam naquele segundo andar onde viveu durante anos, até à sua morte, o poeta e filósofo Emilio Oribe, e onde, também, Jorge Luís Borges confessou ter-se hospedado e sofrido de insónias - "Lembro que fui para Montevidéu. Estava alojado no Hotel Cervantes e às vezes acordava as duas ou três da manhã..." [Alifano, Roberto, Borges, Biografia verbal. Barcelona: Plaza & Janés, 1988] -, talvez a curiosidade me tivesse levado a subir os quatro lances de escadas até ao segundo andar e batido à porta do quarto número 106 onde, talvez, o mais melancólico e irreverente dos escritores uruguaios Juan Carlos Onetti - se, como fez Mario Benedetti, se tivesse "dexilado" para reencontrar em Montevideu a cidade mítica de Santa Maria inventada no seu romance A vida breve -, me recebesse na cama onde nos últimos dias do seu exílio madrileno sempre recebia os amigos. Tivesse eu entrado no quarto 106 e Onetti aí estivesse, talvez ele me confessasse o seu arrependimento por não ter sabido corresponder ao amor de Idea Vilariño, também ela, como ele, poeta da melancolia e da saudade tão montevideana expressa num dos mais belos e dilacerantes ensaios poéticos sobre a despedida:"Ya no será / ya no / no viviremos juntos / no criaré a tu hijo / no coseré tu ropa / no te tendré de noche / no te besaré al irme. / Nunca sabrás quién fui / por qué me amaron otros. / No llegaré a saber por qué / ni cómo nunca ni si era de verdad / lo que dijiste que era / ni quién fuiste / ni qué fui para ti / ni cómo hubiera sido / vivir juntos / querernos / esperarnos / estar. / Ya no soy más que yo / para siempre y tú ya / no serás para mí / más que tú. / Ya no estás / en un día futuro / no sabré adónde vives / con quién / ni si te acuerdas. / No me abrazarás nunca / como esa noche / nunca. / No volveré a tocarte. / No te veré morir" ("Ya no", Poemas de amor, 1957). 

Desconhecendo, ainda, nessa altura, a ressonância amargurada destes dois amantes montevideanos, ladeei a fachada do edifício desocupado que antes fora o Hotel Cervantes - e que acolhe agora o Hotel Esplendor -, afastei-me desse lugar espectral de portas emparedadas, espelhos côncavos e de fantasmas que vivem em dimensões paralelas e caminhei até ao vizinho cinema Rex, detendo-me a observar uma janela do primeiro andar, onde o escritor e músico Felisberto Hernández escreveu os seus contos fantásticos, cujo final nunca se encontrava na última página, enquanto, sem que ele suspeitasse, a sua jovem mulher fazia de costureira durante o dia e, à noite, de espia ao serviço de Moscovo. 

Tendo falhado o aleph que o hotel Cervantes escondia, e pouco dado a enredos de espionagem, procurei uma Montevideu mais arejada, indo nos passos de Mario Benedetti pela rua Sarandí "como un desnudo, con esa desesperada desnudez de los sueños, cuando uno se pasea en calzoncillos por Sarandí y la gente lo festeja de vereda a vereda." (Benedetti, La tregua), e onde, na livraria Más Puro Verso, acolhida numa antiga óptica do século XIX, festejei a compra dos Poemas de amor de Idea Vilariño e, depois, como uma criança a quem foi oferecido um brinquedo há muito desejado, fui deambulando, sem pressa, pelos cafés resgatados da memória que foram lugares de encontro de intelectuais, escritores, artistas, como se a própria Sarandí fosse um grande café, lugar de hábitos metódicos e dos vaivéns casuais: o café Brasileiro, o café Las Missiones, o antigo Sorocabana - hoje reconvertido sob o nome Big Mamma - que foi poiso habitual de Benedetti, lugar de escrita e de tertúlia política e literária." 

Caminhei, depois, pela "Dieciocho", a grande avenida de Montevideu, perseguindo os passos de Benedetti: "Uno tiene la impressión de aquí todos nos conocemos. Caminar por 18 de Julio es como moverse por el patio de la casa familiar (Benedetti, Andamios). Lembrei-me que se ficasse por ali até ao anoitecer, talvez me cruzasse com Mario Levrero no seu vai e vem de vertigem entre alfarrabistas que por ali existiam na mesma avenida onírica que nos haveria de revelar em La novela luminosa. De volta à Cidade Velha, fui observando, como o pintor montevideano Joaquin Torres-García, “os veículos, as praças, a geometria das casas alinhadas, e a árvore, o agente da polícia, os armazéns, e a estação de comboios” até parar na esquina de Ituzaingó e Sarandi, diante do Hotel Pyramides, onde residiu um tal Francois Ducasse, funcionário da embaixada francesa, pai de Isidore Ducasse, que sob o pseudónimo de Conde de Lautréamont escreveu os Cantos de Maldoror. Por detrás do Teatro Solís, descendo em direcção à Rambla, pareceu-me ver a sombra do fantasma de Lautréamont esgueirando-se entre os transeuntes que desciam em direcção ao Mar da Prata, mas o que encontrei foi, apenas, um modesto monumento branco em memória dos três escritores francofones de Montevideu, Isidore Ducasse, Jules Laforgue e Jules Supervielle. 

E já diante da linha de casario ribeirinho, também não vi indícios da conjura de poetas precocemente dadístas e surrealistas encabeçados pelo falso morfinómano Julio Herrera y Reissig que, por volta de 1900, talvez inspirados por Lautréamont, prenunciaram o movimento modernista que agitou a Montevideo a partir de um minúsculo quarto erguido no terraço da casa dos seus pais, com vista para o Mar da Prata,  que baptizaram como“Torre dos Panoramas”. Porque já ali não estava o cartaz que os poetas conjurados de 1900 colocaram junto à “Torre dos Panoramas” e que dizia: “proibida a passagem a uruguaios”, "en ese momento [também a mim] se me afirmó definitivamente la convicción: soy de este sitio, de esta ciudad" (Benedetti, La tregua) e encaminhei-me até a praia de Pocitos e, ali, iluminado pelo brilho metálico do Rio da Prata, com alma suspensa em memórias de leituras e milongas, fui observando aqueles passeantes montevideanos que "nacen junto a la rambla y en la rambla se mueren / y van al paraíso / y claro / el paraíso es también una rambla." (Benedetti, Los Pitucos).

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Buenos Aires pelos passos de Borges


A Buenos Aires inventada por Borges nos seus livros já não existe, embora, aqui e ali, se nos deixarmos perder pelos caminhos que o autor gostava de percorrer nos fins de tarde luminosos do Verão porteño, a possamos ainda imaginar. Para Borges, Buenos Aires foi muito mais que o cenário da sua obra, inspirada em personagens e histórias dos subúrbios porteños do princípio do século passado. A Buenos Aires de Borges é também a cidade recriada nas suas ficções, a cidade poética, mítica, revelada em muitas das suas histórias e poemas. Vem daí, dos textos de Borges, o meu primeiro conhecimento de uma Buenos Aires desaparecida, onde biografia e ficção convergem num espaço simultaneamente cartográfico e imaginário.

Como Borges, procuro, agora, as ruas do centro numa manhã de sexta-feira, com a sua «prepotência de azul» (Inquisiciones). Primeiro, a casa onde nasceu: «Nasci aqui, no coração da cidade, na Rua Tucumán, entre as ruas Suipacha e Esmeralda, numa casa (como todas as desse tempo) pequena e sem pretensões, que pertencia aos meus avós maternos» (Autobiografia). Porque a casa já não existe, escolho um prédio ali perto, na Rua Maipú (n.º 944), que foi a última e a mais duradoura residência de Borges, e onde escreveu a maior parte da sua obra. Do terraço do apartamento, Borges podia ver as árvores da Praça San Martín, sobretudo o esplendor azul-violeta, às vezes com tonalidades lilás, dos enormes jacarandás em flor, nos fins de tarde de Verão austral: «Todo o sentir se acalma/ na absolvição das árvores/ jacarandás, acácias …» (Fervor de Buenos Aires).

Eis agora a Rua Florida cujos dezasseis quarteirões Borges percorreu a pé, durante anos, a caminho da Biblioteca Nacional, na Rua México. Aquela que foi a primeira rua pedonal de Buenos Aires é, hoje, o epicentro comercial da cidade, com lojas das melhores marcas, e onde se podem comprar artigos de couro a preços convidativos, depois da desvalorização do peso argentino. Ao fim da manhã, uma multidão de turistas enche a rua. A paixão pelo futebol é visível nas dezenas de lojas de artigos desportivos que dão colorido à rua expondo as camisolas das principais equipas argentinas e da selecção nacional. À porta das Galerias Pacífico, onde se encontram instalados o Centro Cultural Jorge Luis Borges e a Escola de Dança de Julio Boca, um par de tango ensaia algumas figuras de dança ao som de La Cumparsita. Atravesso depois a rua Lavalle que cruza com a Florida e lhe serve de extensão comercial. Esta artéria foi outro lugar de deambulação de Borges que frequentava as suas salas de cinema nos anos cinquenta. Mais adiante, a livraria El Ateneo, que foi nos anos sessenta um dos lugares mais concorridos pela geração de intelectuais e escritores, e onde Borges costumava deter-se no seu percurso diário para a Biblioteca Nacional onde era director, convida a entrar. Borges não gostava do centro. E embora durante anos tivesse que caminhar pelas suas ruas e frequentasse os cafés - como o Tortoni, na avenida de Maio -, as tertúlias - como a do café Royal Keller, na Rua Corrientes - e os jornais da zona - como La Prensa, na Avenida de Maio -, pouco mudou a sua opinião formada na juventude sobre o centro como «um lugar pitoresco e desenraizado» (O tamanho da minha esperança). Muito mais tarde, já na velhice, afirmaria que «a Rua Corrientes é uma superstição» (Borges, el memorioso), procurando destruir o mito da mais central das ruas de Buenos Aires.

E é a extensa Corrientes que percorro ao segundo anoitecer cruzando-me com gente apressada que vai subindo a avenida iluminada pelo néon dos anúncios dos teatros e dos cinemas chamando turistas para as soirées desta Broadway porteña cantada nas letras de tangos. E mais logo serão onze e vinte como num dos contos fantásticos de Cortázar, "A tristeza do cronópio frente a uma multidão de famas que sobe a Corrientes às onze e vinte". E no interior das muitas livrarias - onde se compram edições desaparecidas de Borges, de Casares, de Cortázar – e dos incontáveis cafés que ainda povoam a avenida, as luzes iluminam histórias escritas e conversadas.

Entro em cafés nocturnos. Em Corrientes, desde a Avenida Callao até à Rua San Martín sempre existiram cafés com sabor a tango, a política e a todo o tipo de discussões, a movidas artísticas, a conquistas e enganos, ao rescaldo do último derby entre o Boca Juniors e o River Plate. A boémia porteña tinha o seu encontro privilegiado ao longo desta avenida que nunca dormia, carregada de sonhos e ilusões. Nos distintos cafés se pronunciaram panegíricos manifestos acerca da liberdade e os  intelectuais da época evocaram com grande lirismo a autenticidade da alma artística. Borges frequentou tertúlias no Royal Keller. Carlos Gardel e José Razzano, que actuavam no Teatro Esmeralda, hoje conhecido por Maipo, tinham todas as noites uma mesa reservada no Guarani. Horacio Quiroga frequentou La Richmond. A lista de cafés era infindável. E embora hoje muitos já tenham desaparecido ou se tenham tornado irreconhecíveis pelas transformações sofridas, ainda se respira em Corrientes um pouco do tempo em que aquela rua nunca dormia. Talvez Borges tenha, também, numa tarde qualquer, entrado no Giralda que, na esquina da Corrientes com a Uruguai, permanece inalterado, com as suas paredes de azulejos, mesas de mármore, as suas luzes de néon e os  empregados vestidos de branco. E, quem sabe, saboreando o mesmo chocolate com churros que bebi enquanto ouvia histórias de cafés tangueros contadas por um companheiro acidental porteñoPersigo Borges pela Corrientes, cruzando a mais larga avenida do mundo, a 9 de Julho, hoje desocupada dos piqueteros _ a mais recente criação do populismo sindical argentino _ que na véspera a tinham cortado exigindo compensações. E depois, pela Avenida de Maio _ a mesma avenida que mitificou Eva Perón _ com os seus belíssimos edifícios como o do antigo jornal La Prensa, de fachada art déco, que acolhe agora a Casa da Cultura. Imperdível a visita ao café Tortoni que parece esperar por Borges regressando do jornal Crítica.

E, no reverso do mito, os edifícios ainda tingidos com as cores da revolta contra «los ladrones», como na porta principal do Banco de Boston, escolhido como símbolo da corrupção, do clientelismo e de uma desastrosa política económica assente na  paridade artificial com o dólar, que ia levando a Argentina à ruína. À porta de um esplendoroso edifício, dois sem-abrigo acomodam-se para passar a noite, desmentindo o luxo do cenário. Na Praça de Maio, as mães já não choram pelos desaparecidos, mas anuncia-se uma grande manifestação, para o próximo sábado, por ocasião do aniversário do golpe que instaurou a ditadura. No palanque estarão filhos de desaparecidos ao lado do presidente Kirchner. Porque é preciso não esquecer.

Puerto Madero, na «Doca Sul, de onde outrora zarpavam o Saturno e o Cosmos» (Elogio da Sombra) levando Borges e a sua família até ao outro lado do Rio da Prata, a Montevideu, já não é um território de ruas picantes onde «convivem o cosmorama e a leitaria, o bordel e os vendedores de Bíblias» (Ficções). Resultado de uma profunda intervenção de restauro e revalorização, o velho Puerto Madero, exemplo da arquitectura industrial inglesa do início do século 20, com os seus armazéns nas margens dos diques, concentra hoje numerosos restaurantes e áreas de lazer, constituindo uma nova centralidade onde Buenos Aires se debruça sobre a corrente morna e pardacenta do Rio da Prata.

É em Palermo Viejo, no passado um subúrbio perdido nas margens da pampa, que Borges encontra o cenário privilegiado para criar os mitos e dar corpo aos fantasmas das suas histórias. A dois quarteirões da praceta Julio Cortázar, numa esquina, pode ler-se, agora, o seu testemunho: «Um quarteirão inteiro, mas cuja metade/ ficava exposta a chuvas, auroras, rajadas./ O mesmo quarteirão que há hoje no meu bairro:/ Guatemala, Serrano, Paraguai, Gurruchaga» (A fundação mítica de Buenos Aires).

Por isso, escolho Palermo Viejo para continuar este itinerário porteño e, numa manhã de um sábado que se anuncia luminoso, perco-me pelas ruas e pracetas de Palermo Viejo e, pelos caminhos de Borges, entre silêncios e milongas, deixo que o bairro se me revele. Em Palemo Viejo, onde Borges viveu, primeiro em criança e, depois, na juventude (na Rua Serrano, 2100, hoje chamada Jorge Luis Borges em sua memória), já não se pode ver, como Borges viu, «pares de homens dançando tangos, quando passava um acordeão, porque as mulheres não queriam dançar». Mas o espírito do lugar permanece por ali e, às vezes, é possível assistir-se na Praceta Serrano aos ensaios da murga Los Herederos de Palermo que nos transporta ao tempo de Borges. A praceta Serrano (que na realidade se chama Cortázar, em memória do autor de Rayuela), a que os moradores e frequentadores chamam carinhosamente la placita, tornou-se, nos últimos anos, o epicentro da movida jovem porteña e um lugar onde acontecem numerosas actividades culturais e comunitárias. Ou não fosse esta placita o lugar onde a toponímia junta Borges e Córtazar na esquina onde a Rua Serrano (que agora tem o nome do autor das Ficções) se cruza com a praça rebaptizada com o apelido do escritor de Rayuela.

São 10 horas da manhã e no pequeno jardim central está prestes a começar um desfile de moda, onde os criadores locais apresentam as novas tendências para o Outono-Inverno porteño, como se estivéssemos em Paris ou Milão. Noutro canto, à sombra de magníficos plátanos, estende-se através de algumas bancas improvisadas uma Feria del Trueque, um lugar onde se pode trocar quase tudo o que já não queremos por algo de que necessitamos. Dizem-me que estas feiras informais constituíram uma resposta imaginativa dos argentinos à crise económica que se abateu sobre o país há cerca de dois anos. Hoje, não obstante os piores dias já terem passado, muitas continuam a realizar-se, aos domingos, em alguns bairros populares de Buenos Aires, alimentando uma pequena economia informal de troca directa de produtos e serviços. No auge da depressão de há dois anos, esta intricada rede chegou a ter milhares de nós espalhados por antigas fábricas e armazéns devolutos. 

Como o sol começa a aquecer, sento-me na esplanada do Acabar (Honduras, 5733),  um esplêndido bar de sumos naturais. Aliás, muitos outros bares _ El Taller, Crónico, Malas Artes _, galerias de arte, ateliers de toda a espécie envolvem esta placita, considerada, hoje, um dos lugares de passagem obrigatória do itinerário cultural e boémio porteñoDecido, depois, penetrar numa Buenos Aires de geografia labiríntica, errando ao longo de ruas arborizadas, como a Guatemala que ainda mantém um certo ambiente tranquilo de bairro, acedendo a ruelas com calçadas irregulares, curvando esquinas onde florescem buganvílias, esgueirando-me por estreitas travessas e íntimos saguões – Cabrer, Soria, Santa Rosa, Russel – onde as fachadas de um casario baixo e os muros que foram cenário em muitos livros de Borges se revelam agora, renovadas, nas suas «cores de aventura» (Lua defronte). E através de metáforas, afortunadamente irreais, sob «a clara plenitude de um poente» (Fervor de Buenos Aires), é todo um catálogo da «mitologia bairrista» de compadritos, brigões e marginais de faca ligeira que se pode imaginar. Deste Palermo onde «vivia gente de fraca qualidade juntamente com gente muito pouco agradável, como os rufiões e os compadritos, que se caracterizavam pelas suas lutas à facada» (Autobiografia) pouco ficou e, hoje, pode passear-se com relativa segurança por aquele que é considerado uma espécie de Soho porteño. Curiosamente, a vocação cosmopolita de Palermo já Borges a descobrira muito tempo antes, ao afirmar sentir-se «mais porteño que argentino e mais do bairro de Palermo do que de outros bairros. E até essa pátria interessante - que foi a de Evaristo Carriego – se estava a tornar em centro...» (Carta publicada na revista Nosotros, 1925).

Embora não esqueça o seu passado rufião, Palermo Viejo é hoje um bairro seguro, habitado por gente com um forte sentido de pertença ao lugar e com uma notável consciência cívica, expressa nas mais variadas dinâmicas comunitárias de que mesmo um turista acidental facilmente se apercebe. Gente sensível, ecológica, reciclável, apesar do snobismo congénito que os faz saltar de um desfile de moda para uma galeria de arte e daí para a loja de agricultura biológica mais próxima.  Palermo Viejo é, ainda, um lugar para descobrir pela noite dentro, com os seus restaurantes sofisticados, bares e cafés literários, clubes de tango e de jazz de novo cheios de gente que prefere consumir a arriscar as poupanças nos bancos.

As grandes caminhadas de Borges levavam-no desde Palermo até Belgrano, um bairro com alma própria, onde velhos casarões se misturam, hoje, com edifícios modernos. Manhã cedo de domingo, deixo o «carinho das árvores em Belgrano» (O tamanho da minha esperança) em direcção aos bairros do sul, a San Telmo, onde reside «a essência original de que Buenos Aires é feita, a (sua) forma universal ou ideia platónica» (Buenos Aires en tinta china). Antes, impossível não passar pela Rua Garay, perto da esquina com a Rua Bernardo de Irigoyen, no bairro da Constitución, onde se encontrava o Aleph, «o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos» (O Aleph).

Através de ruas empedradas, chego à Praça Dorrego, no coração de San Telmo, bem a tempo da feira de antiguidades que aí funciona há mais de trinta anos. O bairro, as ruas e a praça conservam ainda a sua imagem antiga, com as casas coloniais que Borges evocou: «Onde San Juan e Chabuco se cruzam/ vi as casas azuis/ vi as casas que têm as cores da aventura» (Lua Defronte). Sob as tendas que se amontoam no exíguo espaço da praça, velhos discos de tango de 78 rotações, livros e revistas esgotadas, mapas e cartazes antigos acomodam-se ao lado de garrafas, taças, ferragens e brinquedos de outras épocas, enquanto à sombra das árvores começa uma aula de tango.

De San Telmo chega-se facilmente a La Boca, um bairro que Borges evitava, como nos conta Adolfo Bioy Casares: «Não sei porquê, mas Borges tinha um desprezo por La Boca. Durante anos eu não fui a esse bairro por causa de Borges. E uma vez fui e achei que era lindíssimo» (Adolfo Bioy Casares, em entrevista com Carlos Aberto Zito). Ao início da tarde, o azul e amarelo da hinchada do Boca Juniors invadem o bairro que já foi de marinheiros e artesãos genoveses, pois é dia de jogo contra o Racing, mesmo ali ao lado no mais mítico estádio de Buenos Aires, a Bombonera, onde Maradona nasceu para o futebol. Na Rua Caminito, por onde passava um antigo ramal ferroviário, as velhas casas feitas com chapas de zinco onde viviam os imigrantes italianos exibem fachadas de cores garridas junto das quais, pintores, malabaristas, músicos e dançarinos de tango se exibem para grupos de turistas confundidos com o crescente rufar de bombos e gaitas, vindos de escondidos subúrbios pobres, a caminho da cancha do Boca.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Voo nocturno


Junto à porta de embarque número 60 do aeroporto Toribio Merino, em Santiago do Chile, vejo passar em formação cerrada a tripulação do voo Suiss 97 que daqui a pouco se fará aos céus por cima da cordilheira branca. Com passada rápida e decidida, cruzam o umbral que leva ao grande pássaro metálico que descansa na pista, ignorando os passageiros, quietos e silenciosos, que esperam o embarque.

E neste derradeiro território a roçar os abismos duvidosos por vir, inspecciono à minha volta aqueles que comigo sobrevoarão, a doze mil metros de altura, montanhas crepusculares, cidades invisíveis, mares nocturnos. Alguns conversam em alemão, outros em castelhano, muitos em português do Brasil, porque o avião fará escala em São Paulo. Ninguém ousa falar do tributo inconfessável que, às vezes, é pedido a quem ousa desafiar os céus. Nem ninguém estaria disposto a pagá-lo. Eu não. Por isso, entre os passageiros suspensos no espelho deste aeroporto austral, procuro aquela criança que viaja sempre comigo em todos os aviões que cruzam os altos mapas em que me adentro e quando a encontro sei, então, que o avião que me aguarda do outro lado do espelho não cairá.

Subo para aquela espécie de cápsula intercontinental que, veloz, roncando, atravessa obliquamente as nuvens até estabilizar nos céus deixando para trás a cidade nervosa. Comunicam que devemos manter os cintos apertados. Turbulências nos Andes. Estremecimentos. Voamos. Não sei como fazem para manter toda esta massa no ar. Seguramente é aquela criança que no seu sonho colorido vai sustendo as enormes asas metálicas que nem precisam de bater para avançar na insustentável leveza do caminho que o avião vai desenhando atrás de si. Regresso do Chile, de outro continente, de outro hemisfério sobrevoando a cordilheira branca ao segundo entardecer. Nos corredores laterais passam hospedeiras suíças empurrando carrinhos com refeições empacotadas, perguntando o que desejamos beber com reiterados sorrisos plásticos. A noite real, lá fora, envolve o avião. E cá dentro apagam-se as luzes. Há passageiros que lêem e se eu fosse Vila-Matas, levantar-me-ia e, dissimuladamente, como um voyeur aéreo, atravessaria, agora, de ponta a ponta, a penumbra do corredor e, sob a luz oblíqua que desce do tecto nalguns assentos, num acto do mais puro voyeurismo, procuraria saber o que lêem estes passageiros da noite.

Mas não me atrevo a tanto e abro Los detectives salvajes, de Bolaño. Vou na página duzentas e noventa, faltam, portanto, trezentas e dezasseis páginas que devem chegar aguentar as três horas de viagem até São Paulo, mais as doze, depois, até Zurique, mais quase três até Lisboa. Vou no rasto de Cesárea Tinajero, a misteriosa escritora desaparecida no México após a Revolución, e as dezoito horas de voo correspondem ao tempo canónico da busca errante que retomo nesta cápsula voadora que vai rasgando a penumbra rumo ao norte. Leio furiosamente este tremendo romance infra-realista na companhia dos poetas desesperados e traficantes ocasionais que Bolaño me vai apresentando, bifurcando-me através das ruas selvagens do México DF, do «espacio oscuro que es la ciudad de Managua [...], una ciudad que sólo conocen sus carteros», das ramblas nervosas de Barcelona, mendigando em Tel Aviv, escapulindo-se da morte em Monróvia…

Há passageiros adormecidos, alguns com pesadelos recorrentes a preto e branco. Eu não. Iluminado pela minha lâmpada pessoal, numa dobra da página, adormeço por momentos e tenho «sueños, no pesadillas, sueños musicales, sueños de preguntas transparentes, sueños de aviones esbeltos y seguros que cruzaban Latinoamerica de punta a punta por brillante y frío cielo azul». Indiferente aos sonhos e aos pesadelos alheios dos restantes passageiros e ao meu thriller bolañiano, a jovem engenheira chilena sentada ao meu lado que vai para Barcelona à procura de trabalho prefere o zapping pelos programas oferecidos pelo vídeo do avião. Lá fora, as turbinas ferem já um céu de muitos azuis verticais sobre o primeiro amanhecer de uma Lisboa que o avião ignora. Antes, ainda, a montanha mágica, bifurcação estranha antes experimentada por Montano, a personagem que Vila-Matas encontrou no Chile e que «después, directamente desde la orilla del batallador Pacífico, viajó con él a la cumbre de una montaña suiza». Este também o destino incerto para onde me vão conduzindo as asas metálicas deste avião, agora menos perdido, menos adormecido, atento já ao lento mover de asas do outro avião que, daqui a pouco, me há-de levar para Lisboa.

(Novembro 12, 2007)

Valparaíso


É no porto onde acostam embarcações adormecidas, sobrevoadas por bandos esfomeados de gaivotas e pelicanos, que se deve procurar o carácter porteño de Valparaíso onde marinheiros de todas as épocas viram a sua imagem abandonada no espelho quebrado da baía que reflecte o anfiteatro de casario colorido descendo num dédalo de ruelas, becos e escadarias ziguezagueantes os quarenta e dois cerros «secretos, sinuosos, recoderos», sobranceiros ao Pacífico. Mas é nos cerros, sob o azul-lavanda de um céu cristalino, ou encobertos nas sombras do segundo crepúsculo, que sobrevive, ainda, a sua verdadeira alma. Talvez, por isso, aquilo que melhor define ainda hoje Valparaíso é a convivência entre a luminosidade diurna que cobre o casario desalinhado e a obscuridade nocturna dos seus becos de pesadelo onde marinheiros de passos incertos, às vezes, ainda se perdem.

Como um funâmbulo, persigo os passos desses marinheiros que, desertando por uma noite dos navios baleeiros, depois de terem sobrevivido à travessia do Cabo Horn, aqui vinham naufragar, escadarias acima, nos cerros, em tempestuosos leitos. E dos outros que, rumando à Califórnia em busca de ouro, aqui ficariam para sempre, paralizados pelo canto das sereias numa qualquer pista de tango perdida na dobra secreta das suas ruas e praças irrigadas pelo sopro salgado do mar.  No Paseo Veintiuno de Mayo, donde antes habia grandes carnavales, subo ao assalto das colinas por um dos quinze funiculares ainda em actividade, o Artilleria, de 1893, verdadeira peça de museu habitado pela nostalgia de um tempo em que Valparaíso conheceu a prosperidade, antes de se transformar, primeiro, num porto fantasma, arruinado pelas novas rotas de navegação após a construção do canal do Panamá e, depois, na selva de contentores nervosos que observarei desde o mirador Diego Portales. Primero, cruzo um obscuro corredor e passo pelo torno de bronze que contabiliza os passageiros que sobem; entro num velho carro de madeira que depois de um súbito solavanco começa a subir guinchando, deslizando sobre carris oleados, puxado por roldanas e correntes; e, uma vez em cima,  recebe-me «un hombre palido, um misterioso angel de sombra». E no mirador Diego Portales é a cidade inteira que resplandece debruçada sobre o Pacífico através de um labirinto de ruelas com velhas casas desequilibradas, imbricadas umas nas outras, amparando-se mutuamente, enlouquecidas. E a mesma baía que viu Gabriela Mistral: «Bahia mayor de Valparaiso! Anda en novelas y poemas ingleses y noruegos. Quien navega la conoce y la cuenta al contar sus mares».

Desço pela Escalera de la Muerte até à rua Prat, onde Jorge Luis Borges se assomou, em 1977, depois da apresentação de um livro de Maria Luisa Bombal, e sigo, depois, pela rua Esmeralda, onde ainda sobrevive o velho letreiro do Café Vienés já desaparecido, frequentado nos tempos luminosos de Valparaíso pelas senhoras do cerro Alegre que ali vinham ouvir valsas interpretadas por uma orquestra vivo. Por breves instantes, consigo imaginar o esplendor perdido de um tempo efémero em que, a seguir a São Francisco, Valparaíso era a principal cidade do Pacífico, quando as suas lojas exibiam as novidades europeias e os seus teatros as mesmas peças da moda que faziam o gáudio dos espectadores em Paris e Londres. E já na Plaza Anibal Pinto, em frente da fonte de Neptuno, entro no Café Riquet para comer o famoso manjar con nueces, servido por velhos empregados que parecem saídos de um tempo que já não existe.

E novamente um funicular, o mesmo em que o alfandegário Rubén Darío subiu, em 1888, para no cerro Concepción contemplar «ondeantes cortinas de enredadera» e assomar por janelas de guilhotina, como escreveu em Azul, e perder-se depois por escadarias que não conduzem a parte nenhuma. E ao entardecer, perco-me em  deambulações pelo cerro Alegre: Pasaje Cambridge, subida Templeton, paseo Atkinson e, sobretudo, paseo Loti, território mágico que evoca o escritor francês que por aqui também errou. E depois de um carmenere crepuscular fico na pensão Carrasco, em Concepción, sonhando breves sonhos a preto e branco que antecipam o dia por vir.

Sigo os passos de Neruda que no cerro Bellavista mandou erigir uma das suas residências na terra, vou depois por Florida e por Mariposa, cruzo recantos surgidos do nada, casas penduradas no vazio, umbrais escuros cujo limiar não ouso atravessar, descendo «escaleras [que] parten [...] de arriba y se retuercen trepando. Se adelgazan como cabellos, dan un ligero reposo, se tornan verticales. Se marean. Se precipitan. Se alargan. Retroceden. No terminan jamás», povoadas de bares, onde ao som de uma milonga qualquer se servem bebidas centenárias a bebedores sonolentos».

E, de novo na baixa ruidosa, confusa, caótica, agora como um detective salvaje - única maneira de avançar incólume na manhã apocalíptica que se estende ao longo da nervosa avenida Pedro Montt, enxameada por um povo de vendedores ambulantes e cães errando nos passeios - apanho o último trolley que me levará ao terminal de autocarros para Santiago.

 (Novembro 6, 2007)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Diário santiaguino


1. Chego a Santiago do Chile 26 horas depois de ter saído de casa. A combi que me transporta desde o aeroporto Toribio Merino acompanhando a corrente poluída do rio Mapoche, atravessa agora uma cidade radiante, com incandescentes torres de vidro pós-modernas e gigantescos centros comerciais coabitando com veneráveis habitações coloniais, alguns edifícios Art Deco e outros sem estilo nenhum, numa acumulação espalhafatosa de formas que compoem o mixt arquitectónico de Santiago do Chile. A interminável Alameda Bernardo O’Higgins, enquadrada pela cordilheira nevada, abre-se diante dos meus olhos como uma corrente de luz, vinda da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Na calçada, burocratas apressados de fato e gravata, grupos de jovens estudantes uniformizados, carabineros, compoem um quadro aparentemente conservador, militarizado, que parece constituir a imagem de Santiago. À direita, ergue-se o Cerro de Santa Lúcia, “tão culpado de noite, tão inocente de dia”, como escreveu o poeta Nicolás Guillén e onde o fundador de Santiago, Pedro de Valdivia, sediou em 1541, o seu acampamento. Na esquina Ahumada vislumbro uma cidade mercantil, confusa, uma corrente humana cruzando-se indiferente. E de repente, surge o Palácio de La Moneda, e recordo Salvador Allende, ali assassinado em 11 de Setembro de 1973 pelos militares golpistas, seguindo-se 16 anos de chumbo. Depois de deixar por ali os últimos passageiros que comigo vieram do aeroporto, retornamos ainda pela Alameda, e já na Providência, adentrando-nos numa Santiago de casas térreas, rectilínea, arborizada, provinciana, até ao bairro de Ñuñoa onde Daniel Barraco me espera. (Outubro 30, 2007)

2. Todas as cidades têm o seu aleph, isto é, um lugar secreto capaz de albergar todas as representações que fomos construindo sobre cada uma delas. Em Santiago, procuro-o ao entardecer nervoso, desde a Plaza de Armas, ocupada por pintores que reivindincam aquele espaço para expor o seu trabalho, jogadores de xadrez e damas, desempregados e passeantes fortuitos como eu. Sigo por Ahumada onde, encostados a anónimos edifícios novos, sobrevivem restos da velha cidade fundada por Pedro de Valdivia, em 1541. Atravesso várias ruas pedonais, Huerfanos, Monjitas, Santo Domingo, depois pelo barrio Paris-Londres, espécie de mosaico sereno de estilos variados, neo-clássico, gótico e mourisco, povoado de pequenos hotéis elegantes para amantes secretos, e depois pela Merced até à livraria Metales Pesados onde compro um Bolaño, Entre parénteses, que me acompanha agora pela rua Lastarria. Ali está, ainda, o Biógrafo, célebre cinema e cafetaria de culto para onde confluem jovens cineastas, actrizes da moda, punks, yuppies, numa invulgar justaposição de estilos de vida nem sempre coincidentes.  E já naPlaza Mulato Gil de Castro, enquadrada por antiquários, alfarrabistas e galerias de arte, cafés e esplanadas, onde, dizem-me, nasceu em boa medida a nova literatura chilena, entre rodadas de pisco sour bebido aqui com um rigor profissional, disponho a escrever este diário. Adentro-me a seguir por um labirinto de ruelas secretas, ladeadas de pequenas habitações de cores vivas a que o crespúsculo confere múltiplas tonalidades. Estou em Santiago e ainda não encontrei o seu aleph(Outubro 31, 2007)

3. Terceiro dia numa Santiago radiante apesar dos colegiais fardados, dos carabineros de olhar distante, da mesma matilha de cães vadios errando na Alameda. E as mulheres formosas de olhos de uva, essas ainda não as vi. Mas comecemos pelo princípio. Ontem, ao jantar, esbocei com Daniel um arrojado plano de evasão rumo ao sul, no rasto de Chatwin. Não ao sul profundo dos páramos gelados, mas aonde seria possível ir nos dois dias que destinaria para isso. Talvez Pucón ou Puerto Mont ou Coyhaique. Hoje descobri que todos os voos estavam esgotados. Os lagos, os vulcões, as florestas araucanianas terão de ficar para outra evasão. Vou, por isso, a Bellavista, o bairro boémio de Santiago, dizem. Compro algumas jóias em lápislazuli. Visito a casa de Neruda, La Chascona. Depois, imitando um conto instantâneo de Bolaño que caminha ao meu lado, ao último atardecer en la tierra, atravesso uma Santiago provinciana, cruzo ruas de casas ajardinadas, evito umbrais de bares coloridos, ignoro esplanadas nervosas na calçada. E escolho o Galindo para jantar com este companheiro fortuito politicamente incorrecto que, à medida que o vou conhecendo, se revela mais mexicano e, sobretudo, mais latino-americano que chileno. Mas é sobre o nocturno chileno que ele abandonou em 1974, depois de sair de uma prisão de Pinochet, que falamos. Entretanto, trazem-me uma paila marina escaldante e é como se tivesse todo o Pacífico à minha mesa, com uma fauna de mariscos conhecidos  e outros cuja identidade nao ouso adivinhar. Através das janelas atravessa um segundo entardecer menos nervoso que o de ontem. Bolaño conta-me agora dos novos escritores chilenos que obstinadamente procuram escapar à sombra tutelar de Huidobro, de Neruda, de Gabriela Mistral, de Violeta Parra. E menos de Nicanor Parra que nao é um fantasma. E sobre Isabel Allende diz-me que “no es una escritora, sino na escribidora“; e Skármeta, “un personaje de televisión“. Espero não vir a ler, um destes dias, na revista catalã Ajoblanco, uma crítica desapiedada sobre este jantar, como retribuiu a Diamela Eltit que o convidara para jantar em sua casa. Julgo que o facto de ter viajado no avião para o Chile com os seus  detectives salvajes jogará a meu favor. E também o meu interesse súbito pela modernidade visceral do nocturno chileno e das ruas do exílio mexicano. Por isso, me conta, ainda, el secreto del mal, evocando o eterno diálogo com a literatura argentina, Arlt, Piglia, os fantasmas de Borges, as vanidades literárias. E também la canalla sentimentalMas da vanidade do tempo não me apercebi eu. Saio, então, para rua e reparo que o personagem de Soldados de Salamina, de Javier Cercas, já não caminha ao meu lado, na noite infrarrealista de Bellavista. Apenas grupos de jovens escondidos atrás de enormes garrafas de cerveja Escudo como se estivessem numa estação do inferno. Uns riem-se como se soubessem que o mundo está para acabar e só eles suspeitam desse destino quebrado. Outros olham as mesas vermelhas, flutuando sobre abismos duvidosos. Não vejo ali nenhum dos rostos que conheci nas filas das cabines telefónicas de Estocolmo. E ficam felizes, indiferentes aos meus passos incertos, agora que Bolaño me deixou só nesta parcela do nocturno chileno(Novembro 1, 2007)

4. Estou na Patagónia. Não os territórios magalhânicos, errando pelos páramos ventosos e rudes do fim do mundo, mas apenas num restaurante homónimo, na rua Lastratria, em Santiago, aonde me trouxeram os meus passos incertos de detectve salvaje em busca do aleph santiaguino que por aqui deve estar escondido. E nesta Patagónia que já foi mercearia, ainda ali se encontram os velhos armários de madeira, o primitivo balcão com grandes frascos de vidro em cima, velhas caixas de vinhos, uma garrafeira de vinhos austrais e, a um canto, um armário com livros que me são oferecidos enquanto espero pelos sabores longitudinais do sul profundo. Trazem-me um cordero magallánico com bagas silvestres patagónicas, um carmenére e, no final, o incontornável flan con manjarblanco que me recorda outras evasões por estas paragens. E eu julgo ter encontrado, finalmente, a rua artúrica para onde me conduziu, hoje, o meu destino incerto. (Novembro 2, 2007)

5. Caminho por ruas nervosas até à Estación Mapoche onde está a Feira do Livro de Santiago. Antes, atravesso os portões do velho Mercado Central e confronto-me com algumas das espécies esquisitas que hei-de encontrar, em seguida, nadando na paila marina que me servem ao almoça num restaurante do mercado. Depois, já na feira, desisto de comprar os Bolaños que me faltam. É que sei onde comprá-los por metade do preco. Sigo, depois, para Bellavista, ao lado da corrente do Mapoche que desce veloz da cordilheira sobre um leito de cimento. E desespero ao procurar o pequeno teatro La Memoria, onde passa Las brutas, que Daniel Barraco me desafiou a ver, mas quando finalmente o encontro, descubro que o espectáculo fora cancelado por impossibilidade de uma actriz. Propõem-me que veja, ali no mesmo bairro, Nadar como um perro. E enquanto faço tempo para o teatro, algo me puxa mais para o sul, nem que seja através de uma Austral, a cerveja patagónica que vou  bebendo, ao crepúsculo. (Novembro 3, 2007)

6. Outro dia. Vou de taxi a Villa Grimaldi que fica já na periferia de Santiago, em Peñalolen. Cruzo bairros pobres em direcção à cordilheira nevada e, de súbito, ali está o umbral tenebroso do tempo da ditatura militar. A Villa Grimaldi foi uma sinistra prisão clandestina especializada na tortura, por onde passaram, entre 1973 e 1978, 4.500 presos políticos, dos quais muitos desaparecerem sem rastro. Entro por uma porta lateral, porque o umbral do medo por onde entravam de olhos vendados os prisioneiros, encerrou-se para sempre. Conheço um sobrevivente que me guia na visita ao parque erigido sobre os alicerces dos pavilhões do mal. E regresso a Santiago, sem outra semântica que não seja do silêncio diante da banalidade do mal. E pensar que, às vezes, num mesma cidade, a luz pode estar à distância de um táxi do nevoeiro mais cerrado. (Novembro 4, 2007)

7.  A julgar pelo que não se lê no metro de Santiago, pode inferir-se que por aqui se lê pouco. E que os livros são caros, porque na maioria importados – Anagrama, Alfaguara, Ediciones B, Seix Barral. Resta, então, a quem precisa de livros para viver, comprá-los em livrarias de saldos ou de usados que encontro no centro. O que não encontro é a minha livraria artúrica, pois todas me parecem indistintas, e as da rede Feria Chilena de Libro ainda mais. Talvez uma pequena livraria, Metales Pesados, quase no final da rua Merced, perto do Museu de Bellas Artes, onde finalmente compro a Rayuela de Cortázar, sem ser em edição de bolso, e converso com o livreiro sobre o efeito Bolaño. Vou à inauguração do Encuentro Internacional de Escritores que me trouxe aqui e deparo-me com muita vanidade e presunção. A literatura, ali, não como ficção mas como falsa sociabilidade. Escritores chilenos dedicando-se mutuamente os seus livros, trocando laudatórias palavras de circunstância. E evoco Ulisses Lima, o detective selvaje de Bolaño que se evaporou da comitiva de escritores mexicanos de visita à Nicarágua para se perder no «espacio oscuro que era a cidade de Manágua [...] que sólo conocen sus carteros». Mas Santiago não é Manágua e não corro o risco de me perder. Por isso, logo que posso, escapo-me dali, fugindo daquela chusma de escritores que se desejam comentados, premiados, homenageados, becados. E recordo as palavras de Nicanor Parra a propósito dos escritores chilenos: “tal vez sería conveniente leer un poco más. E vou pela noite santiaguina jantar tranquilamente na rua Lastarria. Passou-se melhor o debate em que participei, no Encuentro, sobretudo porque a chusma estava noutro local, talvez dando entrevistas a jornais da moda. Falei da literatura rasurada que, sob a hegemonia do mercado, se vende por aí. Mas também das linhas de fuga possíveis para uma outra literatura que pode ainda expressar a consternação do mundo. Como costumo sentar-me só nos restaurantes santiaguinos – Bolaño nem sempre está comigo -  gosto de observar as mesas à minha volta e, às vezes, escutar as conversas. Há um grupo de brasileiros pretensiosos que falam de compras, um casal colombiano que fala, depois, com os brasileiros de auto-estrada que uma empresa brasileira está construindo na Colômbia, chilenos que se referem a uma seita maradoniana que faz casamentos. Mas, na mesa mesmo ao lado, há um chileno distinto que, a pretexto do suplemento literário do El País que vou folheando para me alhear daquela América que ali está, me incita a ler o livro de Jonathan Littel, Las Benevolas, que faz a capa de Babelia. Trata-se de Camilo Marks que tem uma coluna de crítica de livros no suplemento cultural do El Mercurio, e que me diz que ”en Chile, hoy, no hay narradores, solo poetas y que nadie leeNo Centro Cultural Matucana 100, visito a exposição El Manifiesto de Santiago que propõe «una mensaje desde la periferia hasta el centro». Saio sem perceber qual era a mensagem. No Museu de Bellas Artes elejo a exposição de Gracia Barros sobre el dolor y la perdida. Figurações de mulheres desaparecidas em Villa Grimaldi: se llas llevaran vivas y llevavan vida. Da colecção permanente do museu, retenho Roberto Matta. Vejo, depois, La Remolienda, numa encenação do Teatro Nacional Chileno, dirigido por Raul Osorio e antes por Victor Jara. Um gozo iluminado. (Novembro 4, 2007)